O Maniqueísmo

a) Bem x Mal, de Raul Campani
Originalmente, o nome Maniqueísmo vem de uma religião sincrética dualista surgida no século III, que acredita que o mundo se divide entre o bem e o mal e esses dois princípios se combatem. Com o tempo, o termo tornou-se sinônimo de todo pensamento simplista dicotômico, com a mesma idéia de oposição entre o bem e o mal e a inexistência de noções intermediárias.

Acredito que o nosso mundo está repleto de pensamentos maniqueístas, pois as situações muitas vezes não são ponderadas em suas nuances. Um exemplo disso são as novelas da televisão, onde repetem muito os estereótipos dos personagens, que normalmente são bonzinhos ou malvados. Não quero generalizar, mas vejo que existe essa tendência nesses programas de TV, apesar de ter havido alguma mudança, mas nada muito consistente.


Tenta-se muitas vezes, passar uma idéia de mundo, não só nas novelas, mas no dia a dia, de que as coisas são muito claras e que os donos do poder ou de quem tem a palavra estão certos e tem a razão sobre o seu controle. Que se a coisa não for assim, será totalmente ao contrário. Por isso esse assunto é atual, apesar de sua origem ser bem antiga e muita coisa já ter evoluído.

Abaixo, um trecho de uma biografia de Santo Agostinho, onde fala da seita dos maniqueus, a qual era adepto em sua juventude, porém ele sofreu grandes influências neoplatônicas, posteriormente convertendo-se ao cristianismo e contribuindo muito para o desenvolvimento filosófico cristão:
"Cabe aqui uma rápida referência aos maniqueus e à sua doutrina. Eram numerosos e ativos em Cartago. Veneravam o Cristo, do qual Manes (o mais destacado, uma espécie de "líder" dos maniqueus) se proclamava o apóstolo. Falavam incessantemente do Espírito Santo. Faziam a seus ouvintes e simpatizantes promessas sedutoras: pretendiam tudo saber e demonstrar tudo. Para eles era impossível a existência de mistério. Tudo devia ser conhecido, inclusive a maneira como o mundo foi feito, e como tudo, um dia, terá fim. Falavam com veemência de dois princípios, um bom e outro mau, que desde sempre travavam entre si uma luta infernal. Todos os seres criados são marcados por esses dois princípios. Para que os homens encontrassem a salvação, fazendo com que dentro de si o bem vencesse o mal, os maniqueus propunham uma moral bastante austera: nela, tudo, ou quase tudo, era fonte de pecado, e todas as suas prescrições, portanto, tinham como característica o princípio da abstenção. Ademais disso, afirmavam que sua doutrina não tinha mistério algum e que seus escritos nada mais eram do que a pura expressão da verdade, e como tais deviam ser impostos à razão humana."¹
b) Verso da Fig a, madeira pintada
Temos que ter muito cuidado com esse tipo de pensamento, que simplifica as coisas ao extremo e que tenta incutir nas cabeças dos outros qual a verdade absoluta. Não temos boas lembranças na história da humanidade de pensamentos assim, que geraram muita desgraça. Ninguém é o senhor da verdade, o mundo está cheios de coisas a desvendar, inclusive dentro de nossas mentes.

Precisamos ponderar as mais diversas idéias, não é só porque algo vem de nossa cabeça que quer dizer que esteja certo. Existe o pensamento do outro, a moral do outro e não só da nossa tribo, portanto a noção de bem e mal precisa ser muito discutida, pois não é algo estanque. Não estou querendo dizer aqui que temos direito de prejudicar os outros, achando que não existe o certo e o errado. Só que temos que ter noção de que este pensamento de achar que existem apenas dois extremos é muito simplista, perigoso e sem graça.

O mundo tem evoluído neste sentido, mas ainda tem-se usado do pensamento maniqueísta para influenciar pessoas através da política, da religião e da publicidade, por exemplo, pois é mais fácil pensar assim, tornando-se um meio de manobra  no sentido de controlar as ações de pessoas, principalmente indivíduos sem educação e cultura.

Fonte:
1. MADUREIRA, Pedro P. S. Santo Agostinho. BIBLIOTECA DE HISTÓRIA. Grandes personagens de todos os tempos. São Paulo: Ed. Três, 1973. Vol. 14 p. 45.

Comentários

  1. Olá Raul!!!

    Muito bom o texto, mas infelizmente o mundo está cheio de crueldades e maldades.
    Ótimo domingo!!!
    Bjs
    Bia :)

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  2. E bondades que, infelizmente, não fazem "tanto barulho quanto as maldades", principalmente na mídia sensacionalista.. porém, não vamos ser maniqueístas e contradizer o texto que ficou muito bom, parabéns. Também, cabe aproveitá-lo para relembrar que esta forma de pensar extremista é reforçada atualmente pelo paradigma clássico, moderno, ainda vigente em nossa Educação e Cultura. Paradigma o qual fundamenta-se/alimenta-se em explicações simplificadoras da realidade, maniqueísmos e em certezas/verdades universais, nesse intuito, busca eliminar as incertezas da Natureza ao Homem. Ser que por si só é incerto e habitado durante toda sua vida por dúvidas, por que estou aqui, para onde vou, etc e sentimentos não quantificáveis como amor, esperança e amizade. Ensinamentos/aprendizados desde o nascimento que o tornam único, amado e lembrado pelos seus próximos mesmo após uma das poucas certezas em sua trajetória neste "astro-errante" chamado Terra, a morte.

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