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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Leitura de Obras de Gauguin

Visão Depois do Sermão (1888)
A  obra ao lado, que representa a luta de Jacó com o anjo, é a obra mais significativa do período em que Gauguin volta da Martinica para a Bretanha em Pont-Aven, onde reata a amizade fecunda com Émile Bernard. Verdadeira síntese de suas aspirações e realizações: estão presente, altamente transfiguradas, as reações emotivas dos primeiros contatos com a arte popular bretã e com a arte primitiva martinicana; e toma forma sensível pela primeira vez, o novo "simbolismo" concebido por Gauguin sob a influência de Bernard. O conto místico bíblico é sintetizado em largas superfícies de cor pura; não é mais uma narração discursiva de um fato, mas a síntese visível de uma concepção íntima: "Vestir a ideia de uma forma sensível".


O grupo de jovens bretãs em primeiro plano, recolhidas e encerradas nos espaços bem delimitados de suas toucas geométricas, realiza uma outra aspiração do artista amadurecida nesses anos: criar a figura por meio de cor rigidamente bloqueada, segundo o exemplo dos vitrais pintados, ou dos esmaltes de Limoges ou da escola de Epinal, dentro de contornos claramente definidos, limitando planos rigidamente separados um do outro por meio de marcações lineares; e não é estranha, nesse seu estilo que vem definido como "cloisonnisme", a experiência das límpidas abstrações da arte japonesa, de resultados altamente decorativos.

Te Tamari No Atua (1896)
Com te Tamare no atua ( o nascimento de Cristo, filho de Deus ), Gauguin quer apresentar visualmente o sentido da inocência e da integridade moral dos indígenas, cuja sexualidade não reprimida, imune o complexo de culpa, leva à revelação da profunda da sacralidade do amor. Os fantasmas eróticos que atravessam o sono da moça materializam na imagem de uma sagrada família (indígena).

Ao lado da figuração cristã, a estaca pintada evoca os símbolos do paganismo primitivo: faz alusão à continuidade, à unidade do sagrado. Apenas uma imagem visual poderia apresentar simultaneamente a realidade física da adormecida e a realidade imaginária de seu sonho, nenhuma delas é mais concreta, mais certa, do que a outra. Não há símbolo nem alegoria: a Sagrada Família não aparece entre as nuvens, mas está ali ao lado da cama, o estábulo com os bois é um elemento da iconografia tradicional do presépio, mas é também um elemento em si, que alude à lei natural e divina do amor entre os seres vivos.

Em 1895, Gauguin declara: "Em meus quadros, cada elemento é antes considerado e estudado atentamente (...) Estimular a imaginação como faz a música (...) apenas através da misteriosa afinidade que existe entre certas combinações de linhas e cores e a nossa mente". Neste quadro, tudo é previamente estudado; não há uma única nota que traia um contato direto com a cena ao vivo.
 
Gauguin certamente viu e relembra a moça adormecida, mas é na memória que se desvenda o sentido do que viu. Agora tudo adquire significado: A figura solitária no leito nupcial, seu sóbrio abandono, a colcha amarela que se torna um halo de luz em torno do corpo moreno, os quadros da parede adquire vida. A memória não apresenta detalhes e ensurdece as cores; o desenvolvimento dos contornos é simples, a cor se estende em zonas largas e planas, sem brilho nem vibração. A emoção, recuada no tempo, amadureceu na memória (portanto, no tempo da existência), deixou aflorar seu significado profundo, tornou-se pensamento.

O Cavalo Branco (1898)
 O Cavalo Branco é uma tela do período após a sua tentativa de suicídio, e está entre as mais significativas. Na imagem da natureza violenta, Gauguin crê ter encontrado em parte a resposta às sua torturantes perguntas: Nesse saber "Vestir" o pensamento de formas sensíveis, no conseguir a materialização da ideia em formas plásticas que objetivam o drama da busca. As grandes massas plásticas dos cavalos, magistralmente jogadas pelas cores mais arbitrárias, com o azul-marinho intenso da águas e dos cipós, realizam uma visão interior de raro equilíbrio compositivo. Na força da natureza primitiva que faz esboçar a orquídea branca carnosa e bronzeia os corpos nus dos jovenzinhos a cavalo, Gauguin pôde encontrar a única verdade que redime a validade da angústia.

Referências: Clique aqui

Sobre o autor: Raul Campani é artista plástico pós-graduado em Gestão Cultural. Flerta com a música, gosta de filosofia, aficionado em genealogia e trabalha como economiário.YouTube|Facebook|Instagram

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