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segunda-feira, 11 de junho de 2012

A Função da Arte

Edvard Munch: Karl Johan ao Anoitecer, 1892, Óleo s/ tela, 84,50 x 121 cm 
Discutir a função da arte é algo no mínimo intrigante. Por que se faz uma coisa que aparentemente é inútil? Sem utilidade aos olhares imediatistas de nossa sociedade materialista.


Para tentar entender melhor esta questão, trago aqui alguns trechos do livro de FISCHER, Ernst. A Necessidade da Arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.


"A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê..." Com este encantador e paradoxal epigrama, Jean Cocteau resumiu ao mesmo tempo a necessidade da arte e o seu discutível papel no atual mundo burguês.

O pintor Mondrian, por sua vez, falou do possível "desaparecimento" da arte. A realidade, segundo ele acreditava, iria cada vez mais deslocando a obra de arte, que essencialmente não passaria de uma compensação para o equilíbrio deficiente da realidade atual. "A arte desaparecerá na medida em que a vida adquirir mais equilíbrio".

A arte concebida como "substituto da vida", como o meio de colocar em estado de equilíbrio com o meio circundante trata-se de uma idéia que contém o reconhecimento parcial da natureza da arte e da sua necessidade. Desde que um permanente equilíbrio entre o homem e o mundo que o circunda não pode ser previsto nem para a mais desenvolvida das sociedades, trata-se de uma idéia que sugere, também, que a arte não só é necessária e tem sido necessária, mas igualmente que a arte continuará sendo sempre necessária.

No entanto, será a arte apenas um substituto? Não expressará ela também uma relação mais profunda entre o homem e o mundo? E, naturalmente, poderá a função da arte ser resumida em uma única fórmula? Não satisfará ela diversas e variadas necessidades? E se, observando as origens da arte, chegarmos a conhecer a sua função inicial, não verificaremos também que essa função inicial se modificou e que novas funções passaram a existir?

Como primeiro passo, é preciso advertir que tendemos a considerar natural (e aceitá-lo como tal) um fenômeno surpreendente. E, de fato, referimo-nos a algo surpreendente: milhões de pessoas lêem livros, ouvem música, vão ao teatro e ao cinema. Por quê? Dizer que procuram distração, divertimento, a relaxação, é não resolver o problema. Por que distrai, diverte e relaxa o mergulhar nos problemas e na vida dos outros, o identificar-se com uma pintura ou música, o identificar-se com os tipos de um romance, de uma peça ou de um filme? Por que reagimos em face dessas "irrealidades" como se elas fossem a realidade intensificada? Que estranho, misterioso divertimento é esse? E, se alguém nos responde que almejamos escapar de uma existência insatisfatória para uma existência mais rica através de uma experiência sem riscos, então uma nova pergunta se apresenta: Por que esse desejo de completar a nossa vida incompleta através de outras figuras e outras formas? Por que, da penumbra do auditório, fixamos o nosso olhar admirado em um palco iluminado, onde acontece algo que é fictício e que tão completamente absorve a nossa atenção?

É claro que o homem quer ser mais do que apenas ele mesmo, quer ser um homem total. Não lhe basta ser um indivíduo; além da parcialidade da sua vida individual, anseia uma "plenitude" que sente e tenta alcançar, uma plenitude que lhe é fraudada pela individualidade e todas as suas limitações; uma plenitude na direção da qual se orienta quando busca um mundo mais compreensível e mais justo, um mundo que tenha significação. Rebela-se contra o ter de se consumir no quadro da sua vida pessoal, dentro das possibilidades transitórias e limitadas da sua exclusiva personalidade. Quer relacionar-se a alguma coisa mais do que o "eu", alguma coisa que, sendo exterior a ele mesmo, não deixe de ser-lhe essencial. O homem anseia por absorver o mundo circundante, integrá-lo a si; anseia por estender pela ciência e pela tecnologia o seu "eu" curioso e faminto de mundo até as mais remotas constelações e até os mais profundos segredos do átomo; anseia por unir na arte o seu "eu" limitado com uma existência humana coletiva e por tornar social a sua individualidade.

O desejo do homem de se desenvolver e completar indica que ele é mais do que um indivíduo. Sente que só pode atingir a plenitude se se apoderar de experiências alheias que potencialmente lhe concernem, que poderiam ser dele. E o que um homem sente como potencialmente seu inclui tudo aquilo de que a humanidade, como um todo, é capaz. A arte é o meio indispensável para essa união do indivíduo com o todo; reflete a infinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e idéias.

Não será talvez essa definição demasiado romântica? Não conterá a arte, também, o contrário dessa perda "Dionisíaca" de si mesmo? Não conterá a arte igualmente o elemento "Apolíneo" de divertimento e satisfação que consiste precisamente no fato de que o observador se identifica com o que está sendo representado, e até se distancia do que está sendo representado, escapa do poder direto com que a realidade o subjuga, através da representação do real, e liberta-se na arte do esmagamento em que se acha sob o cotidiano?  A mesma dualidade - de um lado, a absorção na realidade e, de outro, a excitação de controlá-la - não se evidencia no próprio modo de trabalhar do artista?

No mundo alienado em que vivemos, a realidade social precisa ser mostrada no seu mecanismo de aprisionamento, posta sob uma luz que devasse a "alienação" do tema e dos personagens. A obra de arte deve apoderar-se da platéia não através da identificação passiva, mas através de uma apelo à razão que requeira ação e decisão. As normas que fixam as relações entre os homens hão de ser tratadas no drama como "temporárias e imperfeitas", de maneira que o espectador seja levado a algo mais produtivo do que a mera observação, seja levado a pensar no curso da peça e incitado a formular um julgamento, afinal, quanto ao que viu: "Não era assim que devia ser. É estranho, quase inacreditável. Precisa deixar de ser assim". Desse modo, o espectador - no caso, um homem ou uma mulher que vivem do trabalho - virá ao teatro para divertir-se assistindo às suas próprias atribuições, às durezas do trabalho de que depende a sua subsistência, bem como para sofrer os impactos das suas incessantes transformações. Aqui, ele poderá produzir-se a si mesmo da maneira mais fácil, pois o modo mais fácil de existência é exatamente a arte.

A razão de ser da arte nunca permanece inteiramente a mesma. Toda arte é condicionada pelo seu tempo e representa a humanidade em consonância com as ideias e aspirações, as necessidades e as esperanças de uma situação histórica particular. Mas, ao mesmo tempo, a arte supera essa limitação e, de dentro do momento histórico, cria também um momento de humanidade que promete constância no desenvolvimento. Como acontece com a evolução do próprio mundo, a história da humanidade não é apenas uma contraditória descontinuidade, mas também uma continuidade. Coisas antigas, aparentemente há muito esquecidas, são preservadas dentro de nós, continuam a agir dentro de nós - frequentemente sem que as percebamos - e de repente vêm a superfície e começam a nos falar.

Quanto mais chegamos a conhecer trabalhos de arte há muito esquecidos e perdidos, tanto mais claramente enxergamos, apesar da variedade deles, seus elementos contínuos e comuns. São fragmentos que se acrescentam a outros fragmentos para irem compondo a humanidade.

A arte em sua origem foi magia, foi um auxílio mágico à dominação de um mundo real inexplorado. Esse papel mágico da arte foi progressivamente cedendo lugar ao papel de clarificação das relações sociais. Uma sociedade altamente complexificada, com suas relações e contradições sociais multiplicadas, já não pode ser representada à maneira dos mitos. Em semelhante sociedade, que exige reconhecimento preciso e consciência global diversificada, se é obrigado a romper com as formas rígidas dos tempos primitivos em que o elemento mágico imperava e chega-se a formas abertas, à liberdade formal. A predominância de um dos dois elementos da arte em um momento particular depende do estágio alcançado pela sociedade: algumas vezes predominará a sugestão mágica, outras a racionalidade, o esclarecimento, algumas vezes predominará a intuição, o sonho, outras o desejo de aguçar a percepção. Porém, quer embalando, quer despertando, jogando com sombras ou trazendo luzes, a arte jamais é uma mera descrição clínica do real. Sua função concerne sempre ao homem total, capacita o "eu" a identificar-se com a vida dos outros, capacita-o a incorporar a si aquilo que ele não é, mas tem possibilidade de ser.

É verdade que a função essencial da arte para uma classe destinada a transformar o mundo não é a de fazer mágica e sim a de esclarecer e incitar à ação; mas é igualmente verdade que um resíduo mágico na arte não pode ser inteiramente eliminado, de vez que sem este resíduo provindo de sua natureza original a arte deixa de ser arte. Em todas as suas formas de desenvolvimento, na dignidade e na comicidade, na persuasão e na exageração, na significação e no absurdo, na fantasia e na realidade, a arte tem sempre um pouco a ver com a magia.

A arte é necessária para que o homem se torne capaz de conhecer e mudar o mundo. Mas a arte também é necessária em virtude da magia que lhe é inerente.

Continuação: A Função da Arte II

Sobre o autor: Raul Campani é artista plástico pós-graduado em Gestão Cultural. Flerta com a música, gosta de filosofia, aficionado em genealogia e trabalha como economiário.YouTube|Facebook|Instagram

Comentários
8 Comentários

8 comentários:

  1. Um texto interessante!

    Não conhecia esta tela de Munch tem algo de Van Gogh. Um belo post!
    Gostei tanto da citação de Cocteau.
    De Mondrian já conhecia e tenho algo na janela do costume.

    Boa tarde!:)

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  2. A arte é o que nos distingue no reino animal.
    Sem ela não estariamos num patamar superior.
    Belas considerações!

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  3. Olá Raul!!!

    A arte é mesmo revolucionária, é como diz o texto: "A arte é necessária para que o homem se torne capaz de conhecer e mudar o mundo. Mas a arte também é necessária em virtude da magia que lhe é inerente."
    Muito bonito e verdadeiro o que você escreveu lá no comentário sobre o amor no meu blog, daria um ótimo post sobre o assunto.
    Bjs :)

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  4. Olá Raul, acredito que arte jamais vai desaparecer, pois ela é a própria tradução da vida, quer seja bonita ou não. Obrigada pelos parabéns, Deus o abençoe!

    Um abraço.

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  5. Raul Campani,sinto-me lisongeada em estar aqui.A primeira vista vejo com muita satisfação o assunto "ARTE" e a necessidade dela na Vida. Tenho o livro "A necessidade da Arte" há muitos anos e não o perco de vista. Parabéns pela citação, pela arte que faz parte de nossa vida, a oportunidade de aqui estar e e poder aplaudí-lo pelo seu interessantissimo blog. Um abraço meu.

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    Respostas
    1. Obrigado pela visita e pelas palavras!
      Espero que continue visitando o blog e comentando, é importante que pessoas interessadas em Arte participem.

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  6. Oi Raul
    Interessante o texto .É sempre muito bom ler sobre Arte .
    A escultura é linda e instigante!
    Obrigada pela atenção e visita.
    boa semana

    * estive aqui outro dia e deixei um comentário/não sei se errei qualquer coisa porque não o vejo mais.
    Pode ter falhado.rs
    abraços

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    Respostas
    1. Oi Lis,
      Você deixou seu comentário na postagem sobre o Laçador. Mas que bom que você veio novamente fazer seu comentário, é sempre bom ter a participação dos colegas da blogosfera.
      Abraços

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