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segunda-feira, 1 de abril de 2013

A Função da Arte II

Guernica, 1937 de Pablo Picasso
O debate sobre a função da arte é algo que seguidamente vem a tona, nem que seja para vislumbrar a sua importância no sentido de contar a própria biografia do artista, que muitas vezes revela coisas que estão dentro de seu íntimo. E como ele vive em um contexto histórico, desvela também a sociedade que está à sua volta. Diante disso, volto a discorrer sobre esse assunto, dando continuidade a postagem: A Função da Arte.
"Os que sonham acordados têm conhecimento de mil coisas que fogem àqueles que sonham adormecidos." (Wols) (1)

Parece incontestável que, enquanto útil, a arte é necessária. Referindo-se à importância da arte comprometida dentro de uma sociedade injusta, o artista canadense Frederick Taylor escreveu, em 1945, que "As pessoas precisam de arte, muitos instintivamente sentem que precisam dela." E acrescentou, a propósito de sua obra dentro da linha realista: "Meus quadros informam o público, e informam os trabalhadores, e aumentam a compreensão mútua e o respeito." O historiador Moura Sobral comenta essa afirmativa dizendo que ela enuncia "O princípio segundo o qual a arte pode, e em certas condições deve, ter um alcance social imediato" e estabelecer implicações com o mundo do trabalho por poder igualmente, dentro de um quadro histórico bem preciso, incitar "um grupo social à resistência", ou auxiliar a classe trabalhadora a aumentar seu apreço por sua própria dignidade humana.
Esse aspecto didático da arte comprometida é a raiz mesma do Zhdanovismo: A arte (tanto a literatura, como o teatro e as artes plásticas) deve revelar uma força moral e uma verdadeira ideologia, despertar a consciência coletiva, fazer o trabalhador um herói, desconhecer o pessimismo, posto que deve ter um caráter construtivo.
Historiando o divórcio entre arte e sociedade, Plekhanov lembra como, no século XIX, "converter a arte em algo útil era, a juízo deles (artistas), obrigá-la a servir àqueles mesmos burgueses que tanto desprezavam". É o que dizia Gauthier em relação aos "Partidários da arte utilitarista", aos quais tacha de "imbecis, cretinos, ignorantes, etc." Os parnasianos e primeiros realistas franceses, ainda segundo Plekhanov, sentiam também "desprezo infinito pela sociedade burguesa que os rodeava", que não passava, essa burguesia, aos olhos da intelectualidade, de um resultado não logrado da revolução de 89. (PLEKHANOV, George, 1989, p. 11)
Assim, tanto parnasianos como realistas eram partidários da arte pela arte. Depois da revolução de 1848, contudo, Baudelairre qualificava de "pueril a teoria da arte pela arte" e proclamava que "a arte devia perseguir fins sociais". Quando surge a tendência utilitarista da arte? Vemos que o debate não é tão novo. Plekhanov conclui: "A tendência à arte pela arte dos artistas e das pessoas que se interessam vivamente pela criação artística surge à base de seu divórcio irremediável com o meio que os rodeia" e, no caso oposto, diz: "A chamada concepção utilitarista da arte, isto é, a tendência a atribuir às obras a significação de uma avaliação dos fenômenos da vida, e o alegre desejo - que sempre acompanha dita tendência - de participar das lutas sociais, surge e se fixa quando existe simpatia recíproca entre uma parte considerável da sociedade e as pessoas que sob forma mais ou menos ativa se interessam pela criação artística." (PLEKHANOV, 1969, P. 24) (2)


Penso que a arte pode ser um instrumento de protesto sim, não só na luta dos trabalhadores, mas também contra as guerras, a poluição e o individualismo de nossa sociedade. A arte também pode servir para nos passar calma, tranquilidade e perseverança, nos ajudando a seguirmos nossas vidas com a maior plenitude possível. Mas também não quer dizer que sempre tenha que ter um objetivo específico, ela pode apenas existir por si só.

"Supor que a natureza seja caótica e que o artista a ordena parece um ponto de vista absurdo. O que podemos desejar é por um pouco de ordem em nós." (Willem de Kooning). (3)

Mas afinal, podem-se mudar as instituições mediante a acumulação de acontecimentos? Não existe o perigo de reincidir  numa velha ilusão: acreditar que pela arte se possam resolver os conflitos de classe e os demais antagonismos gerados pela divisão social do trabalho? Certamente, para que essas experiências, para que a cultura inteira não se diferencie da prática transformadora das massas e seja o modo de satisfazer coletivamente as necessidades, é indispensável mudar as relações sociais de produção: uma arte socialista só existirá numa sociedade socialista. Entretanto para que se vá formando a nova cultura, não se deve esperar a revolução; ao contrário, a prática socializada da arte é um instrumento-chave para criar novas condições culturais em que cresçam, desde as bases, a consciência e a ação revolucionárias. (4)

Enfim, discutir a função da arte é primordial, pois a sua importância deve ser lembrada sob diversos aspectos no qual ela pode atuar. Coloco aqui uma frase de Leonardo da Vinci que sintetiza toda essa importância:
"Não desprezes a pintura - pois estarás desprezando a contemplação apurada e filosófica do universo." (5)

 FONTES BIBLIOGRÁFICAS:

(1) e (3) TREVISAN, Armindo. Como Apreciar a Arte. Porto Alegre, 1990
(2) AMARAL, Aracy. Arte para Quê? (2ª Ed.) São Paulo: Nobel, 1987
(4) CANCLINI, Nestor Garcia. A socialização da Arte. São Paulo: Cultrix, 1980
(5) CARVALHO, Eide: O Pensamento Vivo de Da Vinci. São Paulo; Martin Clarte, 1986.

Sobre o autor: Raul Campani é artista plástico pós-graduado em Gestão Cultural. Flerta com a música, gosta de filosofia, aficionado em genealogia e trabalha como economiário.YouTube|Facebook|Instagram

Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. O poder da arte é mesmo revolucionário, os que acham que isto é ilusão, são conformistas e não lutam por nada, a arte é primordial, desperta e inspira o que há de bom no ser humano canalizando para transpor em níveis inimagináveis a criação e o talento de cada um.
    Muito verdadeiro seu texto Raul!!!

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