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terça-feira, 15 de outubro de 2013

O que tem a Mona Lisa?

O que está por trás de tanta fama que tem este quadro, esta magia, o encanto sutil que faz desta obra talvez a pintura mais famosa de todos os tempos?

De que maneira Leonardo da Vinci concebeu aquele sorriso meio dúbio, indefinido, matreiro? São estas e outras questões que me levaram a estudar esta obra tão importante para a história da arte.


Segundo Giorgio Vasari, um historiador contemporâneo de da Vinci, a história do retrato da Mona Lisa é o seguinte:

Em 1503, Francisco del Giocondo, um rico florentino, encomendou a Leonardo - e pagou-lhe muito bem por isso - um retrato de sua mulher, Mona Lisa. Quatro anos depois o quadro não está pronto. Aqui começa o grande debate: quem é a dama do quadro? A mulher de Giocondo? É este o retrato de uma jovem de 26 anos? Ou é o retrato de Constança d'Avalos, Duquesa de Francavilla, "inclusive com o véu negro de viúva"? Há quem afirme - e a sério - que o encantador sorriso é de um jovem travestido. (1)

O certo é que a Mona Lisa del Giocondo se tornou o quadro mais célebre da pintura ocidental. Hoje está no Louvre, como principal atração turística, numa sala em que um Rafael e um Correggio passam desapercebidos, ofuscados pela fama da Gioconda. Aqui também Leonardo da Vinci foi copiado. A mesma pose foi repedida por dezenas de artistas que retrataram mulheres vestidas e despidas na mesma posição, à procura do mesmo sorriso inimitável, até nossos dias. (2)


Uma fama tão grande quanto a da Mona Lisa de Leonardo não é uma benção completa para uma obra de arte. Ficamos tão habituados a vê-la em postais e até em publicidade, que se torna difícil olhá-la com olhos isentos, como a pintura feita por um homem real retratando uma mulher real de carne e osso. Mas vale a pena esquecer o que sabemos, ou acreditamos saber sobre o quadro, e examiná-lo como se fôssemos as primeiras pessoas a fixar os olhos nele. O que logo nos impressiona é o grau surpreendente com que Mona Lisa parece viva. Ela parece realmente olhar para nós e possuir um espírito próprio. Como um ser vivo, parece mudar ante os nossos olhos e estar um pouco diferente toda vez que voltamos a olhá-la. Até mesmo em fotografias do quadro sentimos esse estranho efeito, mas diante do original, no Museu do Louvre, em Paris, a sensação é quase sobrenatural. Por vezes, ela parece zombar de nós, outras vezes, temos a impressão de surpreender uma sombra de tristeza em seu sorriso. Tudo isso tem um ar algo misterioso, e assim é, muito frequentemente, é esse o efeito, de uma grande obra de arte. Não obstante, Leonardo certamente sabia como obteve esse efeito, e por que meios. O grande observador da natureza sabia mais sobre a forma como usamos os nossos olhos do que qualquer pessoa do seu tempo ou antes dele. Leonardo viu claramente o problema que a conquista da natureza tinha criado para os artistas - um problema não menos intrincado do que a combinação de desenho correto e composição harmoniosa. As grandes obras dos mestres italianos do Quatrocento que seguiram o caminho apontado por Masaccio têm uma coisa em comum: as suas figuras parecem algo duras, quase de madeira. O estranho é a responsabilidade por esse efeito não caber claramente à falta de paciência ou de conhecimentos. Ninguém podia se mais paciente em sua imitação da natureza do que Van Eyck; ninguém podia saber mais sobre desenho e perspectivas corretas do que Mantegna. E no entanto, apesar de toda a grandeza e imponência de suas representações da natureza, as suas figuras parecem mais estátuas do que seres vivos. A razão pode ser, que quanto mais conscienciosamente copiamos uma figura linha por linha, detalhe por detalhe, menos podemos imaginar que ela se movesse e respirasse. É como se o pintor a tivesse enfeitiçado subitamente, e a forçasse a manter-se imóvel para sempre. Os artistas haviam tentado vários métodos para superar essa dificuldade. Mas somente Leonardo encontrou a verdadeira solução para o problema. O pintor deve deixar ao expectador algo para adivinhar. Se os contornos não são desenhados com a maior firmeza de traço, se a forma é deixada um pouco indefinida como desaparecendo numa sombra, essa impressão de secura e rigidez será evitada. Essa é a famosa invenção de Leonardo a que chamam sfumato - um lineamento esbatido e cores adoçadas que permitem a uma forma fundir-se com outra e deixar sempre algo para alimentar a nossa imaginação. Se voltarmos a Mona Lisa, poderemos entender algo de seu misterioso efeito. Vemos que Leonardo empregou o seu sfumato com suprema deliberação. Quem tiver alguma vez tentado desenhar ou rabiscar um rosto sabe que aquilo a que chamamos expressão repousa principalmente em duas características: os cantos da boca e os cantos dos olhos. Ora, foram justamente estas partes as que Leonardo deixou deliberadamente indistintas, fazendo com que se esfumassem num sombreamento suave. Por isso é que nunca estamos muito certos quanto ao estado de espírito  realmente refletido na expressão com que a Mona Lisa nos olha. Sua expressão, parece sempre esquiva. Claro que não é apenas a indefinição que produz esse efeito. Há muito mais por trás dele. Se observarmos cuidadosamente o quadro, vemos que os dois lados não se irmanam. Isso é por demais óbvio na fantástica paisagem onírica do fundo. O horizonte do lado esquerdo parece estar muito mais baixo do que o do lado direito. Por conseguinte, quanto mais focalizamos o lado esquerdo do ombro, a mulher parece ser mais alta ou estar mais ereta do que se focalizarmos o lado direito. E seu rosto parece também mudar, com essa mudança de posição, porque os dois lados tampouco condizem inteiramente. Mas com todos esses requintados estratagemas, Leonardo poderia ter produzido uma engenhosa peça de malabarismo em vez de uma grande obra de arte, se não soubesse exatamente até onde podia ir e não contrabalançasse seus audaciosos desvios da natureza com uma representação quase milagrosa de carne viva. Vejam a maneira como ele modelou a a mão, ou as mangas com suas minúsculas pregas. Leonardo podia ser tão laborioso quanto qualquer de seus precursores na paciente observação da natureza. Só que ele já não era meramente o fiel escravo da natureza. Muitos séculos antes, no passado remoto, as pessoas tinham olhado para retratos com reverência por pensarem que ao ser preservada a imagem real, o artista podia de algum modo preservar a alma da pessoa por ele retratada. Agora, o grande cientista, Leonardo, tinha convertido em realidade alguns dos sonhos e temores desses primeiros fazedores de imagens. Ele conhecia a fórmula mágica que infundia vida nas cores espalhadas por seu extraordinário pincel. (3)



Fig. 2. Esquema de Proporções Mona Lisa
Não foi por acaso que Leonardo da Vinci escolheu a seção áurea para representar a Mona Lisa, ele que escreveu em seus cadernos: "(...) o sentido de beleza das proporções perfeitas num rosto angelical, ainda é bem maior, pois estas proporções se reproduzem em sintonia harmoniosa, tocando à vista assim como um acorde de música toca ao ouvido." (4)

O formato do quadro, se aproxima bastante da proporção áurea (53 x 78) centímetros; Lançado o lado menor (largura) sobre o maior (altura), obtém-se a primeira subdivisão, um quadrado embaixo e um retângulo horizontal em cima. Exatamente nesta linha divisória começa o oval do rosto. Dividimos o retângulo em cima, projetando o lado menor sobre o maior e obtendo outra vez um quadrado e um retângulo. Essa projeção pode ser feita de ambos os lados. Quando o quadrado se encontra do lado direito, a linha divisória coincide com a sombra vertical do nariz. Na superposição dos quadrados, forma-se no meio uma faixa bastante estreita. Projetando a largura sobre o lado da altura, obtém-se um quadrado pequeno. É uma medida que indica a posição da boca; três medidas, a altura das pupilas; cinco, a altura da raiz dos cabelos. A divisão sempre resulta em partes proporcionais que são fisicamente desiguais e invertidas, alternadamente em sentido espacial. Projetada, essa progressão se configura como uma espiral. (5)

Poderíamos continuar assim por muito tempo, descobrindo os detalhes proporcionalmente interligados. As divisões revelam a estrutura interior da imagem, na qual é fundamentada a ordenação das formas, em magnitudes crescentes e decrescentes. É de se presumir que cada detalhe tenha sido conscientemente pensado e refletido, ainda mais no caso de Leonardo, autor de obras e estudos esquematizados sobre proporções. Citando outra vez Leonardo da Vinci: "O pintor que desenha apenas guiado pela prática e pelo julgamento dos olhos, sem usar a razão, é como um espelho que reflete tudo que encontra à sua frente, sem disso tomar conhecimento". (6)

Embora retrato encomendado, esta obra nunca foi entregue. A figura da Mona Lisa devia conter para Leonardo significados profundos e íntimos para que ele não quisesse se separar do quadro. Personificava talvez o próprio espírito da natureza, como ele o concebia em sua visão de vida, na união mística e na ulterior harmonia em que para ele se revelavam as forças cósmicas. A imagem da paisagem do fundo, mergulhada numa luminosidade misteriosa, entre imperceptíveis graduações de claro e escuro, não é menos significativa do que o olhar e o sorriso misterioso da Mona Lisa, sorriso à beira da maior melancolia. Quando aos 64 anos, novamente sem moradia e já doente, Leonardo aceitou o convite do rei Francisco I da França, para viver no castelo de Cloux, ele levou o quadro consigo e o guardou até a morte. Daí o quadro se encontra hoje, no Museu do Louvre, em Paris. (7)

Só que poucos saberão que a a Gioconda ou Mona Lisa foir roubada em 1911 por um certo Vinsenzo Perugia, para vingar a Itália das pilhagens de Napoleão. Perugia escondeu a pintura no seu apartamento parisiense durante dois anos. Mais tarde, trasportou-a até Florença numa mala de fundo duplo. apesar de todos esses incidentes, o painel de álamo, pintado entre 1503-1506, apresenta uma única rachadura, muito antiga, estabilizada pela incrustação de uma mecha. A vítrina a prova de bala, que protege no Louvre, oferece condições ideais de conservação: 50 a 60% de umidade relativa, a uma temperatura estável de 20 graus. (8)

O delicado sfumato da Mona Lisa é superior ao da Virgem dos rochedos, alcançando um tal de perfeição que pareceu um milagre, aos contemporâneos do artista. As formas são construídas a partir de várias camadas transparentes de tinta, tão delicadas que todo o painel parece exalar uma suave luz interior. Mas a fama da Mona Isa não vem apenas desta sutileza pictórica, mais intrigante ainda é o fascínio psicológico da personalidade do modelo. Porque nenhum outro sorriso foi considerado tão misterioso? A razão talvez seja que como retrato, a imagem não satisfaz a nossa expectativa. Os traços são demasiado individuais para que Leonardo tenha apenas representado um tipo ideal, no entanto o elemento de idealização é tão forte que esconde o caráter do modelo. Mais uma vez o artista estabeleceu um equilíbrio harmonioso entre os dois contrários. O próprio sorriso pode se lido de duas maneiras: como um eco de uma disposição momentânea ou como uma expressão atemporal, simbólica, algo semelhante ao "sorriso arcaico" dos gregos. É evidente que a Mona Lisa dá corpo a idéia de ternura maternal, que para Leonardo representava a essência da feminilidade. A própria paisagem ao fundo, composta sobretudo por rochas e água, sugere forças vitais da natureza. (9) 

Fontes Bibliográficas:

(1) e (2) - NOGUER, José P. Leonardo da Vinci - O homem da Renascença. São Paulo: Ed. Tecnoprint
(3) - GOMBRICH, H. E. História da Arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1979
(4) a (7) - Ostrower, Fayga. Universos da Arte. Rio de Janeiro: Campus, 1983
(8) e Fig. 2 - Trevisan, Armindo. Como Apreciar a Arte. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990
(9) - Janson. H. W. História da Arte. Lisboa: Gulbenkian, 1977.

Sobre o autor: Raul Campani é artista plástico pós-graduado em Gestão Cultural. Flerta com a música, gosta de filosofia, aficionado em genealogia e trabalha como economiário.YouTube|Facebook|Instagram

Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. Oi Raul!!!

    A Mona Lisa é mesmo enigmática e o estudo desta obra continua sendo de suma importância nos dias atuais para a arte, gostei de ler mais sobre este assunto, eu não tinha tanto conhecimento sobre a pintura, aprendi mais um pouco aqui.
    Parabéns por sua consciência politica, se todos brasileiros pensassem assim, certamente o Brasil não estaria do jeito que está, temos que fazer nossa parte.
    Bjs :)

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    1. Tendo pelo menos algumas informações referente à obra, já ajuda a entender um pouco mais de sua importância.
      Bjs

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  2. Raul,

    É uma pintura incrível, pela beleza do retrato, cores, traços e de todas as lendas que a tornaram deliciosamente misteriosa. Nunca a vi de perto. Se existe vida após a vida, o que será que pensa o autor?! talvez ria por nunca ter imaginado que sua arte renderia centenas de anos de desafios.

    Bjs

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    1. Se existe vida após a vida, Leonardo da Vinci talvez esteja satisfeito com tanta fama, pois ele se dedicou muito para alcançar o resultado dessa obra.
      Bjs

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